O diagnóstico
O que o velho sistema sofre, e de onde vem. Duas raízes, entropy e ego, e os sintomas que toda a gente reconhece.
A porta
Provavelmente já o sentes há muito tempo. No teu trabalho, na tua organização, no teu bairro, ou simplesmente em ti. Algo não está bem na forma como organizámos as coisas. Esgota, emperra, parte-se entre as pessoas. Chamamos-lhe aqui o velho sistema, e não precisas de teoria nenhuma para o reconhecer, porque vives dentro dele.
Um diagnóstico não ajuda apontando o dedo. Ajuda mostrando que todas essas queixas separadas partilham as mesmas duas raízes. Vê essas duas, e vê-las em todo o lado, e só então podes escolher outra coisa.
As duas raízes
Ego. A primeira é uma forma de te veres a ti próprio. O ego é o eu que se sente separado do todo, e por isso se sente responsável apenas por si. Dessa separação nasce um medo silencioso, o de que não há suficiente, o de que tens de te desenrascar sozinho. E desse medo vem o resto, agarrar, controlar, ter de ter razão, sempre mais. Não é maldade. É um reflexo de sobrevivência, e todos o trazemos connosco. O velho sistema não inventou o reflexo, fê-lo regra.
Entropy. A segunda é uma lei dos sistemas. Qualquer sistema que tira mais do que devolve esgota-se. Solo que esgotas sem alimentar empobrece. Pessoas a quem pedes sem dar em troca secam. Relações de onde só se retira tornam-se ténues. Esse esgotar-se chama-se entropy. Não é maligno, é simplesmente o que acontece, tão certo como a água que corre para baixo.
E é aqui que as duas se encontram. O ego é o lado de dentro, a entropy o lado de fora. Um sistema vivo trava o esgotamento devolvendo mais do que tira. Uma floresta constrói solo, um grupo saudável constrói confiança. O velho sistema faz o contrário. Cada parte separada toma para si, ninguém alimenta o todo, e por isso o todo esgota-se. O velho sistema é, em suma, o eu separado e medroso transformado em instituição. A entropy é a conta que vem depois.
Os sintomas
Exaustão. Toda a gente vive das suas reservas, e ninguém se lembra de como se para. Isso é a entropy de perto, retira-se das pessoas sem que volte o suficiente para dentro. E é o ego que a mantém, porque parar sabe a falhar, por isso continuamos até cair.
Nunca chega. Por muito que haja, parece escasso, por isso agarramos e guardamos. Isso é o eu separado que pensa que tem de cuidar apenas de si. E o açambarcamento que daí resulta seca precisamente o bem comum de onde todos tiram.
Sem voz. As decisões caem longe das pessoas que tocam. Isso é o ego como controlo, os poucos ou o topo a segurar o leme. E é entropy, porque corta a retroação pela qual um sistema poderia sentir o que está a fazer. Fica surdo a si mesmo.
Crescimento que nunca sacia. Mais receita, mais escala, mais alcance, e mesmo assim continua vazio. Isso é o eu que precisa sempre de mais para preencher o vazio. E é crescimento sem ritmo, que devora o seu próprio chão mais depressa do que ele se recupera.
Parte-se entre as pessoas. Desconfiança, política, facções, culpa. Isso é o ego a defender-se e a querer ter razão. E é entropy no tecido conjuntivo, as relações que sustentam um grupo, a desfiar-se devagar porque ninguém as alimenta.
Ganho curto, conta longa. Colhemos antes de o chão o poder suportar, e empurramos o custo para mais tarde, ou para outra pessoa. Isso é entropy de propósito, tirar antes de o solo estar pronto. E por baixo está o ego, o meu ganho agora, a conta é para depois.
Ninguém assume responsabilidade. Toda a gente espera que seja outro a dizê-lo ou a fazê-lo. Isso é o ego que aprendeu que ficar pequeno é mais seguro. E é entropy, a agência a escoar-se do sistema até ele andar só por inércia.
Mais regras, menos confiança. Quando começa a ranger, chegam regras, controlos, supervisão, e a vivacidade encolhe. Isso é o ego a preferir o domínio à confiança. E é entropy como rigidez, um sistema tão preso que já não se consegue adaptar, e assim morre devagar.
Não se pode dizer a verdade. O que se diz difere do que se faz, e a superfície lisa esconde o que apodrece por baixo. Isso é o ego a querer ser visto como bom. E é entropy, porque a distância entre o que dizemos e o que é verdade não para de crescer, até já ninguém poder conduzir o sistema, porque ninguém sabe como ele está de facto.
O que os sintomas têm em comum
Parecem queixas separadas, mas é sempre as mesmas duas coisas com outra roupa. Um eu que toma para si, dentro de um sistema que se esgota porque sai mais do que entra. Vê-lo uma vez, e vê-lo em todo o lado, na empresa, no governo, na escola, na família, e, sinceramente, também em ti.
Essa última parte é a mais importante. Porque no momento em que o reconheces em ti, sem te condenares, podes escolher outra coisa. A cura não vem de um sistema melhor imposto de cima, porque isso é de novo o ego a querer controlo. Vem da outra raiz. Um eu que sabe que é parte do todo, num sistema que devolve mais do que tira. Não é um ideal nem um modelo, é uma outra forma de estar. Os sistemas vivos mostram-no há milhões de anos.
Dito com honestidade
Isto é uma lente, não uma explicação completa. O poder, a história, a ignorância e dilemas reais têm todos o seu papel. A entropy e o ego são a raiz comum por baixo dos sintomas, não a única causa de tudo.
E é um diagnóstico que explica, não acusa. Somos todos esse eu separado e medroso, o sistema ensinou-nos isso desde cedo. Vê-lo em ti não é uma sentença, é o começo. Um diagnóstico que aponta só para os outros não reconhece ninguém em si mesmo, e por isso nada muda.
Para terminar
Não tens de acreditar em nada disto. Vê apenas se o reconheces. Se o reconheces, é suficiente, porque então já o viste. E o que se vê uma vez, já não se consegue não ver.