O diagnóstico
Uma perspetiva sobre esgotamento e interesses centrados no próprio, e sobre o que a restauração pode exigir. Os conceitos ego e entropy ajudam a colocar questões; não explicam todas as causas.
A porta
Provavelmente já o sentes há muito tempo. No teu trabalho, na tua organização, no teu bairro, ou simplesmente em ti. Algo não está bem na forma como organizámos as coisas. Esgota, emperra, parte-se entre as pessoas. Chamamos-lhe aqui o velho sistema, e não precisas de teoria nenhuma para o reconhecer, porque vives dentro dele.
Olhamos para as relações com dois conceitos: ego e entropy. Aqui representam interesses centrados no próprio e esgotamento. É uma perspetiva escolhida para refletir; reconhecer um padrão não comprova, por si só, a explicação.
As duas raízes
Ego. A primeira é uma forma de te veres a ti próprio. O ego é o eu que se sente separado do todo, e por isso se sente responsável apenas por si. Dessa separação nasce um medo silencioso, o de que não há suficiente, o de que tens de te desenrascar sozinho. E desse medo vem o resto, agarrar, controlar, ter de ter razão, sempre mais. Mas repara, isto não é quem somos. O eu separado é uma possibilidade em nós, não uma natureza. Se desperta ou fica quieto depende do que o rodeia. O velho sistema cultiva-o, recompensa-o, e fá-lo regra, até parecer a própria natureza humana. Não é. É o que este desenho faz de nós.
Entropy. Por entropy entendemos aqui a imagem do esgotamento: usam-se recursos, atenção ou confiança sem reposição suficiente. Pode ajudar a colocar questões sobre solo, trabalho e relações. É uma analogia social, não a aplicação de uma lei física a uma organização.
Os dois conceitos convidam-nos a olhar para nós e para a organização do trabalho. Que interesses têm prioridade? Quem cuida dos recursos e relações de que todos dependem? O que pode apoiar esse cuidado?
Os sintomas
Exaustão. Toda a gente vive das suas reservas, e ninguém se lembra de como se para. Isso é a entropy de perto, retira-se das pessoas sem que volte o suficiente para dentro. E é o ego que a mantém, porque parar sabe a falhar, por isso continuamos até cair.
Nunca chega. Por muito que haja, parece escasso, por isso agarramos e guardamos. Isso é o eu separado que pensa que tem de cuidar apenas de si. E o açambarcamento que daí resulta seca precisamente o bem comum de onde todos tiram.
Sem voz. As decisões caem longe das pessoas que tocam. Isso é o ego como controlo, os poucos ou o topo a segurar o leme. E é entropy, porque corta a retroação pela qual um sistema poderia sentir o que está a fazer. Fica surdo a si mesmo.
Crescimento que nunca sacia. Mais receita, mais escala, mais alcance, e mesmo assim continua vazio. Isso é o eu que precisa sempre de mais para preencher o vazio. E é crescimento sem ritmo, que devora o seu próprio chão mais depressa do que ele se recupera.
Parte-se entre as pessoas. Desconfiança, política, facções, culpa. Isso é o ego a defender-se e a querer ter razão. E é entropy no tecido conjuntivo, as relações que sustentam um grupo, a desfiar-se devagar porque ninguém as alimenta.
Ganho curto, conta longa. Colhemos antes de o chão o poder suportar, e empurramos o custo para mais tarde, ou para outra pessoa. Isso é entropy de propósito, tirar antes de o solo estar pronto. E por baixo está o ego, o meu ganho agora, a conta é para depois.
Ninguém assume responsabilidade. Toda a gente espera que seja outro a dizê-lo ou a fazê-lo. Isso é o ego que aprendeu que ficar pequeno é mais seguro. E é entropy, a agência a escoar-se do sistema até ele andar só por inércia.
Mais regras, menos confiança. Quando começa a ranger, chegam regras, controlos, supervisão, e a vivacidade encolhe. Isso é o ego a preferir o domínio à confiança. E é entropy como rigidez, um sistema tão preso que já não se consegue adaptar, e assim morre devagar.
Não se pode dizer a verdade. O que se diz difere do que se faz, e a superfície lisa esconde o que apodrece por baixo. Isso é o ego a querer ser visto como bom. E é entropy, porque a distância entre o que dizemos e o que é verdade não para de crescer, até já ninguém poder conduzir o sistema, porque ninguém sabe como ele está de facto.
O que os sintomas têm em comum
Parecem queixas separadas, mas é sempre as mesmas duas coisas com outra roupa. Um eu que toma para si, dentro de um sistema que se esgota porque sai mais do que entra. Vê-lo uma vez, e vê-lo em todo o lado, na empresa, no governo, na escola, na família, e, sinceramente, também em ti.
Essa última parte é a mais importante. Porque no momento em que o reconheces em ti, sem te condenares, podes escolher outra coisa. A cura não vem de um sistema melhor imposto de cima, porque isso é de novo o ego a querer controlo. Vem da outra raiz. Um eu que sabe que é parte do todo, num sistema que devolve mais do que tira. Não é um ideal nem um modelo, é uma outra forma de estar. Os sistemas vivos mostram-no há milhões de anos.
Dito com honestidade
Esta perspetiva é uma forma de abrir a conversa. O poder, a história, o conhecimento, as circunstâncias e os dilemas reais têm influência própria. Uma explicação completa exige mais investigação.
E é um diagnóstico que explica, não acusa. Todos trazemos em nós esse eu separado e medroso, e o sistema alimentou-o desde cedo. Vê-lo em ti não é uma sentença, é o começo. Um diagnóstico que aponta só para os outros não reconhece ninguém em si mesmo, e por isso nada muda.
Para terminar
Observa que questão esta perspetiva levanta na tua situação. O que esgota, o que se repõe e que acordo poderia sustentar melhor o trabalho? Avalia a tua impressão com outros e à luz do que realmente acontece.